Eu Mato

3 11 2010

Primeiro Carnaval: Ganhei este livro de presente no último “Dia dos Pais”. Ainda não tinha ouvido falar dele e a primeira impressão que tive, ao ler seu título na capa chamativa, foi de que seria mais um desses livros de auto-ajuda (que eu, por um gosto pessoal, não leio). Esse pensamento me veio, provavelmente, por não ter interpretado adequadamente a conotação da frase em seu título: “Eu Mato”, tendo tido – num primeiro momento – a sugestão de que se aplicava a um desejo de desabafo muito comum àqueles que têm a obrigação de sorrir continuamente para seus clientes ou colegas de trabalho, mas que intimamente desejam mesmo é enforcá-los.

Essa dúvida caiu por terra já nas primeiras linhas do que agradavelmente descobri se tratar de uma excelente trama policial ao melhor estilo de “O Colecionador de Ossos” (Jeffery Deaver) ou de “O Silêncio dos Inocentes” (Thomas A. Harris). Retratado nos cenários glamorosos do Principado de Mônaco e principalmente na sedutora Montecarlo, o autor Giorgio Faletti – um ilustre e desconhecido italiano – nos conta mais uma misteriosa e sangrenta estória de um serial killer.

Segundo Carnaval: Clichê? Sim, o tema principal é clichê, e algumas situações no enredo também são (tendo, inclusive, um de seus detalhes principais se assemelhando a uma passagem do já citado “O Silêncio dos Inocentes”), mas… O que não é clichê?

A nossa vida é clichê! Diversos acontecimentos do nosso dia a dia, mesmo aqueles mais incomuns, se repetem com tanta freqüência que acabam se tornando previsíveis; e se um autor procura retratar estas situações do mundo real em seu livro é natural e admissível que ocorram situações clichê. Chego a perder a paciência com pessoas que condenam algo por ser clichê e, geralmente, essas mesmas pessoas enaltecem uma bela duma porcaria só porquê o infeliz do autor inseriu um episódio considerado como “original” em sua obra, mesmo que esse fato seja algo sem-pé-nem-cabeça.

Terceiro Carnaval: Depois de dar esse piti, posso voltar ao tema inicial: o livro. O autor apresenta uma linguagem surpreendentemente rica em detalhes e descrições, com metáforas interessantes e apropriadas, adicionadas de comparações bem definidas e uma exemplar ambientação. Breves relatos da vida anterior dos personagens centrais também são inseridos, procurando definir a personalidade de cada um baseada em seu passado, buscando justificar o motivo de seu comportamento atual.

 Paralelamente ao desenrolar dos acontecimentos, o autor nos leva a conhecer a fabulosa Montecarlo, suas paisagens, seus costumes e sua gente, além de sempre mencionar o nome das famosas curvas e trechos do circuito de rua de Fórmula 1.

Capítulos curtos, com objetividade e conteúdo, nos induzem a sempre querer ler o próximo. Novos personagens são inseridos paulatinamente, sem esforço ou imposição, deixando o leitor se acostumar a eles antes que novos sejam incluídos.

Quarto Carnaval: Sou um e nenhum… Este é Ninguém – aficionado por música e dono de inteligência e condicionamento físico acima da média – que, juntamente a Frank Ottobre – um agente do FBI buscando se recuperar de uma tragédia –, protagonizam a estória realizando um verdadeiro duelo à distância, lutando também contra seus conflitos pessoais e armados principalmente por seus intelectos.

A trama em si é bem elaborada e não deixa de surpreender em certos momentos. Nas 536 páginas de sua obra, o autor consegue inserir suspense, romance (em doses homeopáticas) e momentos de terror (em larga escala), tudo banhado em muito sangue e com direito a monólogos psicóticos.

Quinto Carnaval: Conclusões de livros são sempre temerosas, pois – caso não sejam bem fundamentadas – podem levar a perder toda uma credibilidade conquistada no decorrer de suas páginas. No caso de “Eu Mato”, seu final não deixa de ser previsível (apesar da identidade do audacioso assassino ser revelada logo no início da segunda metade do livro), mas considero melhor um final que não fuja da realidade do que um que viaje demais na maionese ou faça chacotas da nossa inteligência.

Em todo o caso, o autor nos apresenta um fim coerente, sem situações espalhafatosas ou inadmissíveis e, se em algum momento deixa a desejar no arremate da trama principal, nos compensa com um desenlace satisfatório das situações paralelas, como o desfecho do romance entre Frank e Helena, a condição psicológica da esposa do inspetor Nicolas Hulot e o mistério sobre o real assassino do advogado participante de uma regata.

Ultimo Carnaval: No conjunto da obra, “Eu Mato” pode ser considerado como um livro acima da média: bem escrito, fácil de ler e surpreendentemente interessante. Também a introdução do autor Giorgio Faletti no rol dos grandes escritores é uma grata surpresa – o segundo italiano que conheço digno desta lista (o outro é Umberto Eco).

Só uma dúvida fica (e monto meu argumento com ela): por que tantos carnavais? Eu particularmente não consegui compreender o seu sentido oculto, se é que ele existe. Conto com você para que leia a obra e venha até aqui me elucidar a esse respeito.

Esta resenha foi publicada originalmente no site Leio e indico em 06/10/2010.

Nota 9


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